O Haver - Vinícius de Morais

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  • Опубликовано: 5 окт 2024
  • Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
    Essa intimidade perfeita com o silêncio
    Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
    Perdoai-os! porque eles não tem culpa de ter nascido...

    Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
    Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
    De ferir tocando, essa forte mão de homem
    Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

    Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
    Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
    Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
    Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

    Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
    Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
    Do tempo, essa lenta decomposição poética
    Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinícius.

    Resta esse coração queimando como um círio
    Numa catedral em ruínas, essa tristeza
    Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
    Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

    Resta essa vontade de chorar diante da beleza
    Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
    Essa imensa piedade de si, mesmo, essa imensa
    Piedade de si mesmo e de sua força inútil

    Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
    De pequenos absurdos, essa capacidade
    De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
    E essa coragem para comprometer-se sem necessidade

    Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
    De quem sabe que tudo já foi como será no vir- a- ser
    E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
    Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram
    [ontem nem hoje.

    Resta essa faculdade incoercível de sonhar
    De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
    De aceita-la tal como é, e essa visão
    Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
    E desnecessária presciência, e essa memória anterior
    De mundos inexistentes, e esse heroísmo
    Estático, e essa pequena luz indecifrável
    A que às vezes os poetas dão nome de esperança.

    Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
    De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
    Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
    De não querer ser príncipe senão do seu reino.

    Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
    Pelo momento a vir, quando, apressada
    Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
    Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
    Resta esse constante esforço para caminhar dentro do
    [labirinto
    Esse eterno levantar-se depois de cada queda
    Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
    Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
    Infantil de ter pequenas coragens.
    Jardim Noturno - poemas inéditos - Vinícius de Moraes
    Companhia das Letras
    Organização e seleção Ana Miranda
    Editora Schwarcz ltda. 1994

Комментарии • 1

  • @LucasLima-my9gm
    @LucasLima-my9gm 4 года назад

    Emocionante! Parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻